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Aposta Arriscada
Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Assunto: Economia Brasileira: O Plano Real
Publicado pela Folha de São Paulo em 19/04/98
Economistas ligados ao governo, entre eles o atual ministro do Trabalho, em entrevistas e artigos na imprensa, vêm sugerindo diante do comportamento favorável da inflação doméstica a desaceleração do ritmo das desvalorizações cambiais.Argumentam que essa providência permitiria uma queda mais rápida das taxas de juros nominais em moeda local, sem, contudo, afetar o cupom cambial, ou seja, a remuneração calculada em dólares do investidor estrangeiro. Trata-se, na verdade, de aumentar a rigidez nominal da taxa de câmbio, aproximando o regime cambial brasileiro do modelo argentino de taxa fixa. Os reparos dos críticos ao regime vigente têm sido dirigidos, precisamente, à sobre-utilização da âncora cambial, com expressiva valorização da taxa de câmbio real, o que vem produzindo a rápida ampliação do déficit em conta corrente e aumentando a dependência do país em relação ao ingresso de capitais. É escusado explicar que a atração de capitais na escala requerida para atender aos elevados déficits em conta corrente vem exigindo um diferencial significativo entre as taxas de juros doméstica e externa. No nosso caso, este diferencial de juros manteve-se elevado, desde a implantação do Real, por duas razões: 1) a velocidade de crescimento do déficit em conta corrente e 2) os "choques de desconfiança" causados, em primeiro lugar, pela crise mexicana e, depois, pelo recente e ainda não encerrado episódio asiático. Esses movimentos, num contexto de câmbio visivelmente valorizado, provocaram a elevação do prêmio de risco exigido pelos aplicadores externos. Naturalmente, depois da crise mexicana, durante quase todo o ano de 1995, o cupom oferecido ao investidor estrangeiro atingiu níveis absurdos. Depois de passada a tormenta, as taxas foram caindo a passos de tartaruga, mas sempre mantendo o Brasil na liderança entre os países que praticavam as taxas de juros mais altas do mundo. O fenômeno vem se repetindo na posteridade das turbulências que afetaram as moedas e os sistemas financeiros da Ásia. Mas tudo indica que, desta vez, a "desconfiança" dos investidores sustentará spreads mais elevados entre as taxas de juros dos C-Bonds brasileiros e as que remuneram um papel de igual maturidade emitido pelo governo americano. Os mesmos círculos governistas, os que perpetraram a mágica da sobrevalorização, parecem não ter abandonado a pretensão de repetir agora, às vésperas da reeleição, a proeza da eleição de 1994. Resta saber se ainda é possível, com truque de igual calibre, convencer a platéia nacional e estrangeira de que tais métodos seriam capazes de provocar um aumento de confiança nos mercados financeiros, o que permitiria reduzir os juros, assegurando, ao mesmo tempo, um fluxo permanente de financiamento externo de boa qualidade. Os acontecimentos recentes demonstraram, pelo menos para alguns mais pessimistas, que essas suposições ignoravam e continuam a ignorar três questões importantes: 1) a possibilidade de renovadas turbulências nos mercados financeiros internacionais; 2) a sensibilidade desses mercados diante da situação dos países deficitários e devedores da periferia capitalista; 3) o risco latente de uma fuga do real, diante da desproporção entre a massa de ativos domésticos líquidos e as reservas em divisas do país. É pelo menos imprudente excluir a possibilidade de novas turbulências nos mercados ditos emergentes, particularmente naqueles em que a defesa contra o terremoto asiático implicou a elevação brutal dos juros e a acumulação rápida de endividamento de curto prazo. Nessas circunstâncias, a despeito do nosso confortável volume de reservas cambiais, os mercados futuros de câmbio e de juros estão exibindo nervos à flor da pele diante das alterações na situação internacional. Isso para não falar das interpretações e antecipações que, já se percebe, deverão acompanhar a decisão de se promover um reajuste mais lento do câmbio nominal. Em relação à crise mexicana, a atual onda de instabilidade financeira deve ser vista como um fenômeno não só mais generalizado como mais profundo. A crise financeira e cambial que irrompeu na Ásia está sendo resolvida por uma rodada de fortes desvalorizações competitivas (quase todas superiores a 40% em termos nominais). Pensar, nesse momento, em desacelerar o ritmo das desvalorizações nominais do câmbio, dando um sinal de despreocupação com a trajetória do câmbio real, pode, na verdade, suscitar mais desconfiança do que conforto entre os que financiam o déficit em transações correntes.
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