Assim Caminha a Humanidade
Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Assunto: Transformações do Capitalismo Contemporâneo
Publicado pela Folha de São Paulo em 22/03/98
"A rejeição generalizada do mercado, que teve lugar na primeira metade deste século, não foi um mero acidente nem o resultado da predominância misteriosa de uma ideologia. O capitalismo de livre mercado havia provado, aos olhos da maioria das pessoas, que era instável, injusto e ineficaz." Paul Krugman, em "The Trouble with History'', março de 1998"O Fundo Monetário Internacional é o instrumento do Tesouro dos Estados Unidos para intervir nos países em desenvolvimento." Jeffrey Sachs na revista "The American Prospect'', março de 98. As conseqüências da Grande Depressão dos anos 30 e Segunda Guerra Mundial foram, de fato, tão devastadoras do ponto de vista econômico, social, moral e político que as forças antifascistas vitoriosas trataram de criar instituições para disciplinar e organizar o sistema econômico internacional. Nos anos 20 e 30, a economia mundial foi palco de rivalidades nacionais irredutíveis, que se desenvolveram sem peias, na ausência de um núcleo hegemônico e de mecanismos de coordenação capazes de impedir que as tentativas de defesa das economias nacionais se transformassem em desastre para o conjunto. Este foi o caso das desvalorizações competitivas das taxas de câmbio. Cada um pretendia ganhar o mercado do vizinho e o resultado foi a brutal contração do comércio internacional e a transmissão de tensões nos mercados financeiros. As ondas de instabilidade propagavam-se sem qualquer resistência, disseminando a deflação de preços dos bens e a desvalorização da riqueza. Vou arriscar palpite sobre a filosofia moral e política que inspirou a reconstrução do pós-guerra, liderada pelos Estados Unidos. O pleno emprego foi colocado como uma meta a ser perseguida pelas políticas econômicas. Isso foi feito para evitar a repetição das desgraças causadas por políticas tolas do liberalismo a qualquer preço. O que hoje seria considerado um erro fatal e imperdoável _a forte participação do Estado foi, na verdade, o núcleo das políticas que deram origem a uma era de crescimento, igualdade e bem-estar. A intervenção pública destinava-se a impedir flutuações bruscas da economia, garantir a segurança dos mais fracos e prevenir as incertezas inerentes ao funcionamento dos mercados. Os sistemas financeiros, por exemplo, estavam voltados para o financiamento do crescimento econômico, sob os auspícios de políticas monetárias acomodatícias.
Mas a chamada "era dourada" do capitalismo estava fundada sobretudo na idéia de que a solidariedade deve suplantar a competição. Isso levou à busca da articulação de interesses entre trabalhadores e capitalistas, à construção de instituições e de práticas destinadas a reduzir a angústia de quem se propõe a enfrentar os azares do mercado. As políticas keynesianas tinham o propósito declarado de criar emprego e elevar, em termos reais, os salários e demais remunerações do trabalho. Apesar da forte presença do gasto público, os déficits não só eram raros, como passageiros, porque o rápido crescimento das economias provocava o aumento da renda e da arrecadação. Os déficits crônicos surgem mais tarde, no final dos anos 60, quando ocorre o rompimento do círculo virtuoso entre gasto público, investimento privado e expansão da renda e do emprego. As coalizões progressivas que prevaleceram no imediato pós-guerra foram se enfraquecendo paulatinamente, em boa medida por conta do seu próprio sucesso. Sucesso "interno", expresso na elevação do padrão de vida das massas. Sucesso "externo", que podia ser aferido pela rápida e intensa recuperação da Europa e do Japão. Nos Estados Unidos os ideais do New Deal foram perdendo vigor, não só devido à Guerra Fria, mas também porque os valores da concorrência e do individualismo foram suplantando os da solidariedade. Do plano interno, essas tendências foram se transportando para as relações internacionais. Não há dúvida de que o gesto americano de subir unilateralmente as taxas de juros em outubro de 1979 encerrava um significado mais profundo do que o simples propósito de resgatar a supremacia do dólar como moeda reserva. Foi o começo do fim da hegemonia benigna. Desde então, as políticas econômicas dos demais países, aí incluídos a Alemanha e o Japão, tiveram de se submeter crescentemente aos caprichos do interesse nacional americano. O Acordo do Plaza em 1985, que antecedeu a desvalorização ordenada da moeda americana, depois da escalada de apreciação do início dos anos 80, colocou de joelhos os japoneses. A Europa, de uma maneira geral, adotou diante das novas circunstâncias políticas de austeridade, a chamada desinflação competitiva, cujo preço, como todos sabem, vem sendo alto em termos de baixo crescimento e elevadas taxas de desemprego. O potencial de conflito não é desprezível, ainda que edulcorado pela idéia bastante estranha de que ingressamos no caminho sem volta da harmonia universal. O que se esboça, outra vez, tal como na primeira metade deste século moribundo, é a rivalidade crescente entre as economias centrais comandadas pela grande empresa e pelos funcionários das enormes massas de capital-dinheiro, sob o amparo de seus respectivos Estados nacionais. Há uma confusão muito grande por aí, às vezes proposital, sobre as limitações impostas pelos mercados ao raio de manobra dos Estados nacionais e a impossibilidade de se realizar políticas domésticas. A limitação crescente à ação dos Estados é, naturalmente, muito desigual e não se dá com a mesma intensidade para todos. As reformas liberalizantes são, hoje, emanações dos organismos internacionais cada vez mais comandados pelos Estados Unidos, como Bird, FMI, BID, a própria OCDE, que se encarregam de espalhar pelo mundo afora os cânones da nova fé, a palavra de Roma.