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    Inflação e Deflação
    Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
    Assunto: Economia Internacional
    Publicado pela Folha de São Paulo em 22/02/98

    Nos últimos meses, a taxa de juros dos títulos de 30 anos do Tesouro americano mostram forte tendência à baixa. Depois de ameaçar romper os 7%, ainda em meados do ano passado, essa taxa caiu abruptamente para um mínimo de 5,75% ao ano no auge da crise asiática, em dezembro. Em fevereiro de 98, chegou à casa dos 5,84%. Esse comportamento da taxa de juros de longo prazo exprime a maior demanda e a conseqüente elevação dos preços desses títulos. Neste mundo das finanças desregulamentadas e securitizadas, a flutuação de preços desses papéis é o indicador mais importante do estado de espírito dos mercados globalizados. Esses movimentos respondem às antecipações dos administradores de carteira e dos bancos acerca da evolução das condições gerais de liquidez dos mercados financeiros, bem como do comportamento esperado dos preços dos diferentes ativos, em termos de rentabilidade e risco. Durante quase todo o ano de 1997, os mercados financeiros sustentaram as conjecturas de uma possível elevação das taxas curtas pelo Federal Reserve. Essas expectativas fortaleceram-se diante do crescimento vigoroso da economia norte-americana e da queda da taxa de desemprego, que se situou abaixo dos 5%. É sabido que, desde o início dos anos 80, vem aumentando a sensibilidade dos donos e administradores da riqueza financeira em relação às mudanças imaginadas do nível geral de preços. Assim, por exemplo, um deslocamento para cima do patamar inflacionário, julgado desprezível em outras épocas, tem suscitado reações elásticas das taxas de juros de longo prazo. A crise asiática, no entanto, parece ter dissipado os temores dos mercados quanto a uma possível aceleração da inflação. Muito ao contrário, as atenções e especulações concentram-se, agora, no possível impacto deflacionário das fortes desvalorizações cambiais observadas na região. Em janeiro o relatório mensal do Departamento do Comércio dos Estados Unidos confirmou uma queda de preços dos produtos importados da ordem de 0,6%. É claro que os preços do petróleo e dos produtos agrícolas, em queda livre, contribuíram, em grande medida, para esse resultado. Excluídos do cálculo esses dois grupos de bens, sobra um declínio de preços dos importados de 0,2%. O PPI, Índice de Preços no Atacado, acusou, em janeiro, deflação de 0,7%. Descontados energia e comida, a queda se restringe a 0,1%.O presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, vem advertindo seguidamente para o comportamento assimétrico das taxas de juros na inflação e na deflação. Isso quer dizer o seguinte: ao menor sinal de recrudescimento da inflação, as taxas nominais tendem a elevar-se instantaneamente. Já diante da formação de um ambiente e de expectativas deflacionárias, elas se mostram muito mais preguiçosas e caem lentamente. Resumo da ópera: dependendo da profundidade da deflação nos mercados de bens e serviços, as taxas de juros reais para os produtores e consumidores podem subir ou se manter muito elevadas, sobrecarregando os devedores e aumentando significativamente o risco de inadimplência para os credores. Esse é um fenômeno sobejamente conhecido, estudado pelos partidários da Banking School no século 19 e reconhecido por Keynes nas primeiras décadas do século 20. Diante da expectativa de uma continuidade da queda de preços dos bens, sobe o valor presente de uma determinada soma de dinheiro. Ou seja, eleva-se o rendimento esperado da posse da riqueza sob a forma líquida. Há o perigo de que a confirmação dessas expectativas possa levar a economia para uma trajetória de queda cumulativa de preços, a uma interrupção de pagamentos e a uma crise aguda do sistema bancário. Desconfiam alguns analistas de que a peculiaridade da atual conjuntura internacional está na convivência entre forças contraditórias: 1) tendências deflacionárias nos mercados de bens e serviços; e 2) surtos recorrentes de aceleração de preços nos mercados de ativos financeiros e reais, cuja oferta é inelástica a curto prazo. Esse é o caso das ações, devido aos movimentos de fusões, aquisições e de compra de papéis da própria empresa para evitar a transferência selvagem da propriedade. A política monetária americana move-se, portanto, entre o objetivo de prevenir o processo cumulativo de queda de preços dos bens e a necessidade de regular a "exuberância irracional" dos mercados financeiros, evitando sobretudo a formação de bolhas especulativas, ou seja, a explosão dos preços das ações. Para conter as forças deflacionárias seria necessária uma queda mais rápida dos juros, o que poderia justificar uma ação do Federal Reserve no sentido de reduzir as taxas curtas. Nas circunstâncias atuais, isso seria como dar milho a bode, exacerbando os ânimos dos altistas que antecipam ganhos ainda mais espetaculares nos mercados de ações. Há de se reconhecer que a taxa de juros não pode cumprir simultaneamente os dois papéis, o de conter as tendências à deflação e o de desestimular a especulação altista nas Bolsas. Restará, sem dúvida, o recurso a uma política fiscal mais generosa.

    Déficits, mr. Clinton. Seja como for, tal discrepância na evolução dos preços, os dos bens produzidos e os da riqueza não-produzida, costuma terminar de forma desagradável. As reconciliações, historicamente, têm-se revelado violentas, com dramáticas desvalorizações da massa de riqueza "inflada" e reverberações na esfera produtiva.