PREMIAÇÃO
Um estudo sobre como raça e posição socioeconômica influenciam a aprovação social para uma gravidez recebeu o prêmio de 2026 Award for Distinguished Contribution to Scholarship in Population, concedido pela Seção de Sociologia da População da Associação Americana de Sociologia (ASA). Publicado na American Sociological Review, o artigo reúne pesquisadores da Unicamp, da Universidade da Pensilvânia e da Northwestern University.
Assinam o trabalho Letícia J. Marteleto, professora da Universidade da Pensilvânia; Sneha Kumar, professora da Northwestern University; Luiz Gustavo Fernandes Sereno, doutorando em Economia na Unicamp e pesquisador visitante na Universidade da Pensilvânia; e Alexandre Gori Maia, professor do Instituto de Economia da Unicamp, vinculado ao Centro de Estudos em Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente (CEA).
Intitulado “Who Can Have a Baby? Social Norms and the Right to Reproduce” — em tradução livre, “Quem pode ter um bebê? Normas sociais e o direito de reproduzir” —, o artigo examina como os julgamentos sobre uma gravidez reproduzem distinções sociais. Seu principal resultado mostra que a posição socioeconômica pesa de maneira diferente nas avaliações de mulheres negras e brancas.
No experimento, perfis de mulheres negras apresentados como manicures receberam menos aprovação para engravidar do que aqueles apresentados como advogadas. Entre os perfis de mulheres brancas, porém, a diferença de ocupação não alterou significativamente a aprovação. A pesquisa identifica, portanto, um padrão no qual a aceitação de uma gravidez entre mulheres negras depende mais fortemente de sua posição socioeconômica.
A distinção concedida ao artigo reconhece contribuições à sociologia da população, área que relaciona processos demográficos às condições sociais em que ocorrem. Fecundidade, formação de famílias, saúde e desigualdade fazem parte desse campo de investigação.
O prêmio e a associação científica
O objetivo do prêmio é reconhecer um artigo de contribuição destacada à demografia ou aos estudos populacionais. As chamadas de indicação solicitam o trabalho e uma justificativa de sua contribuição à sociologia da população, encaminhados a uma comissão avaliadora. O foco está na contribuição científica da publicação para o campo.
Fundada em 1905, a ASA é uma associação científica e profissional sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento da sociologia e à circulação de seus resultados na sociedade. Sua atuação inclui a publicação de periódicos, a organização de um congresso anual e a manutenção de espaços de intercâmbio entre pesquisadores. Entre suas revistas está a American Sociological Review, na qual o estudo premiado foi publicado. Essas atividades fazem da associação um espaço de produção, debate e reconhecimento acadêmico da disciplina.
A Seção de Sociologia da População concentra esse intercâmbio nas relações entre sociedade e dinâmica populacional. Sua proposta é desenvolver os estudos de população dentro da sociologia, aproximando a investigação demográfica de questões sobre instituições, relações sociais e desigualdades.
Como os julgamentos foram investigados
O experimento foi realizado em setembro e outubro de 2020, durante a pandemia de covid-19, com 1.639 mulheres de 18 a 34 anos de Pernambuco. As participantes receberam pares de perfis de mulheres hipotéticas e responderam se aconselhariam cada uma delas a engravidar naquele momento.
Os perfis combinavam características distribuídas aleatoriamente: mulheres brancas ou negras; advogadas ou manicures; com 25 ou 35 anos; e sem filhos ou com dois filhos. A ocupação funcionou como indicador de posição socioeconômica. Todas eram apresentadas como casadas, para evitar que opiniões sobre o estado civil interferissem na análise.
Esse desenho permitiu observar tanto a influência de cada característica quanto o efeito de suas combinações. Nos cálculos dos autores, a probabilidade estimada de aprovação para uma gravidez entre os perfis de mulheres negras passou de aproximadamente 5% entre manicures para 12% entre advogadas. Entre mulheres negras sem filhos, a probabilidade quase triplicou quando o perfil indicava uma ocupação de maior status socioeconômico.
Também houve diferenças conforme as características de quem avaliava. As entrevistadas brancas distinguiram mais os perfis segundo a ocupação, oferecendo menor aprovação às mulheres em posição socioeconômica menos favorecida. Já as entrevistadas não brancas demonstraram maior aprovação relativa à gravidez de mulheres negras. Os autores interpretam essas diferenças como indícios de processos de diferenciação entre grupos e de identificação com pessoas socialmente próximas.
Os resultados dizem respeito a julgamentos sobre situações hipotéticas durante uma crise sanitária. Não medem decisões efetivas de ter filhos e não podem ser automaticamente generalizados para toda a população brasileira.
Para explicar os padrões encontrados, o artigo propõe uma teoria da reprodução socialmente sancionada, entendida como a reprodução sujeita à aprovação ou reprovação social. A proposta considera as características das possíveis mães, suas combinações e o perfil de quem as avalia.
Com isso, os autores examinam uma dimensão da autonomia reprodutiva que vai além das condições materiais e das regras legais: as expectativas sociais sobre quem reúne condições para ter filhos. O artigo discute como esses julgamentos podem repercutir no apoio recebido pelas mulheres, nas interações cotidianas e nas percepções sobre quem merece proteção social. Essas repercussões são possibilidades discutidas pelos pesquisadores, e não efeitos diretamente medidos pelo experimento.
O trabalho integra o projeto DZC, coordenado por Letícia Marteleto, que acompanha a vida reprodutiva de mulheres brasileiras em contextos de crises sanitárias desde 2016. Pernambuco reúne desigualdades raciais e socioeconômicas persistentes e a experiência de duas emergências sucessivas — a epidemia de zika e a pandemia de covid-19 —, que colocaram a gravidez e seus riscos no debate público.
Publicado em 2025, o artigo está disponível em inglês: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00031224251387273
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