MÍDIA

 

Fernando Nogueira da Costa | A Terra é redonda


O termo “O Mercado” não se refere a uma entidade única, mas a um conjunto de instituições financeiras, gestores de ativos e investidores operadores principalmente no eixo da avenida Faria Lima, em São Paulo. Esse grupo é composto por aproximadamente 120 instituições consultadas regularmente para previsões econômicas, além de investidores institucionais estrangeiros, cuja função é realocar capital globalmente em busca de maximizar lucro.


Eu prefiro definir, ironicamente, “O Mercado” como um ente sobrenatural. Afinal, ele é onipresente na imprensa econômica brasileira, além de ser apresentado como onisciente e onipotente. Essas suas duas virtudes, em simultâneo, são ilógicas: ou Ele prevê o futuro, antecipadamente, ou Ele tem o poder de construir o futuro. Se ele previu determinado cenário, perde o poder de alterá-lo...


A desconfiança do mercado em relação a economistas de linhagem heterodoxa, como Guilherme Mello (egresso do Instituto de Economia da Unicamp), fundamenta-se em três pilares principais, todos frutos de preconceitos e em busca de “reserva de mercado” profissional só para os colegas ortodoxos. Não enfrentam um debate público pluralista com os heterodoxos e optam por boicotá-los.


O Mercado teme o rompimento com a tradição do neoliberalismo dominar a tecnocracia dominante entre os diretores do Banco Central há trinta anos. Considera a formação na “fronteira do conhecimento” em política monetária, geralmente estar em universidades estrangeiras de ponta.


É uma visão muito estreita e preconceituosa. Eu, por exemplo, comandei a estratégia da operações da tesouraria da Caixa Econômica Federal entre 2003 e 2007. Ela passou a ter a maior carteira de ativos financeiros entre todos os bancos e quebrou o recorde histórico de lucro obtido até então por esse banco público.


Uma pessoa bem-preparada a “aprender a aprender”, como é o exercício cotidiano na Universidade, domina rapidamente a lógica das negociações do mercado financeiro. Conhece as peculiaridades das instituições financeiras brasileiras, como as “jabuticabas” de títulos de dívida pública pós-fixados e do modelo de cartões de crédito brasileiro, algo desconhecido na doutrinação externa.


Mello é visto como alguém sem essa especialização aprofundada, vindo de redutos acadêmicos identificados com pensamentos divergentes da ortodoxia predominante no mercado financeiro. É uma acusação leviana e vil.


Sua estreita ligação com o Partido dos Trabalhadores, tendo coordenado o programa econômico de Lula, faz com sua indicação ser lida como um sinal de interferência política na autoridade monetária. O Mercado teme ser ele um “emissário” do governo, para forçar a queda dos juros, “comprometendo a independência do Banco Central do Brasil” – na verdade, odeia a ideia da diminuição do enriquecimento fácil com “renda passiva”. Não se incomodou com as inúmeras indicações personalistas do ex-ministro neoliberal, aliado à extrema-direita golpista, para cargos públicos, onde se exigiria qualificação adequada.


O documento “Plano de Reconstrução”, coordenado por Mello em 2020, propunha mudanças consideradas “radicais” por O Mercado, como alterar o sistema de metas de inflação para focar apenas no “núcleo”. Expandir o mandato do Banco Central para incluir obrigações com o nível de emprego e a redução de desigualdades sociais (raça, gênero e renda). Adotar regulação inteligente sobre o fluxo de capitais e sobre posições especulativas no mercado futuro.


Para economistas ideólogos de O Mercado, esse perfil traria uma “mudança radical” do regime de estagdesigualdade, com estagnação do fluxo de renda para a população pobre e a concentração da riqueza financeira nas mãos de seus patrões. Essa ruptura com o status quo, implantado desde a adoção do regime de metas irrealistas de inflação, em 1999, pelo guru Armínio Fraga, “poderia impactar a credibilidade da instituição e desancorar as expectativas de inflação”.


Aliás, nos meus quatro anos como diretor executivo da FEBRABAN, jamais ouvi alguma menção à opinião dos “economistas-chefes da Faria Lima”. Esses ideólogos têm todo o espaço no jornalismo econômico brasileiro, mas são desprezados pelos grandes banqueiros. São contratados por “banquetas de negócios próprios”, para defender esse modelo capaz de ampliar a fortuna de seus patrões.


Eles não citam, por exemplo, a relação entre o desenvolvimentismo e o investimento estatal necessário para a produção brasileira de petróleo e gás ter atingido níveis recordes em 2025, alcançando 4,897 milhões de barris de óleo equivalente por dia. Os campos operados pela Petrobras, de forma isolada ou em consórcio, foram responsáveis por 90,03% do total produzido.


A grande maioria desse volume (quase 80%) provém do pré-sal, descoberto no governo Lula II e cujo investimento se prolongou no governo Dilma. Compare com os acontecimentos ocorridos na Petrobras no governo Bolsonaro. A Petrobras teve cinco presidentes, incluindo um interino, pressionados pelo populismo eleitoreiro do governo militar, após reajustar de preços do diesel e da gasolina.


Ao contrário, no diagnóstico coordenado por Guilherme Mello, a desindustrialização brasileira foi causada por juros altos e câmbio sobrevalorizado. Para ele, é necessário desarmar essas “armadilhas” para o país retomar o desenvolvimento produtivo.


Embora os recordes de 2025 tenham ocorrido sob a gestão atual, a exploração do pré-sal foi estruturada em governos anteriores sob hegemonia petista através de políticas de Estado de longo prazo. Os investimentos estiveram associados a estratégias desenvolvimentistas de fortalecimento via capitalização da Petrobras. Os investidores neoliberais só destacam a importância das regras de concessão e leilões mantidos em diferentes gestões neoliberais.


Em suma, “O Mercado” teme a visão social-desenvolvimentista priorizar o crescimento de curto prazo via gastos e crédito. Esse fantasma seria “o moto contínuo tropical”, citado por seu porta-voz Stuhlberger (entrevista no Valor, 03/02/26), em detrimento da estabilidade fiscal e do controle rígido da inflação.


Luis Stuhlberger, CEO e gestor da Verde Asset Management, é apresentado como uma voz influente do mercado financeiro por sua capacidade de sintetizar os anseios de investidores locais e estrangeiros. As ideias desse porta-voz desse setor, sua postura em relação ao governo atual e a natureza de seu raciocínio econômico são simplórias e talvez por isso mesmo o tornam “Porta-voz de O Mercado”.


Stuhlberger reflete as preocupações repetitivas (e contraditórias) dos operadores do mercado financeiro brasileiro, focadas na sustentabilidade fiscal e na rentabilidade do capital, quando a maior parte dela vem do carregamento de carteiras de títulos de dívida pública. Ele apresenta o Brasil como “o Paraíso do Capital”, porque é o melhor lugar do mundo para quem já possui capital aplicado, oferecendo juros reais extremamente elevados (como debêntures pagando IPCA + 8%) com inflação relativamente baixa.


Ele condena o chamado por ele de “modelo do PT de governar”, caracterizado pelo crescimento das despesas reais acima da inflação (5% a 6% ao ano) e pelo uso de “bondades fiscais” com assistência social aos pobres para garantir votos. Stuhlberger alerta a dívida pública brasileira sobe cerca de 4 pontos do PIB ao ano, devido ao déficit nominal e aos juros altos, como um “piquenique à beira do vulcão” capaz de explodir a qualquer momento. Enquanto esse alarmismo não acontece, ele se aproveita dos juros pagos pelo governo.


Para ele, um candidato que apresentasse um plano de ajuste fiscal “crível e sério” poderia levar o dólar ao seu “valor justo” de R$ 4,40 e permitir uma queda expressiva da Selic. Essa superapreciação da moeda nacional derrubaria a inflação importada à custa de maior desindustrialização e desincentivo à exportação.


Stuhlberger utiliza termos ideológicos ou depreciativos, em fragrante “preconceito antilulista”, por exemplo, tem uma visão crítica sobre benefícios sociais. Ele utiliza a tradicional retórica ideológica de direita ao afirmar: “metade do Brasil recebe para não trabalhar”, referindo-se aos 113 milhões de brasileiros recebedores de algum tipo de benefício governamental, inclusive como funcionários públicos!


Essa frase, sem dúvida, sugere uma visão estigmatizada das políticas de transferência de renda. Mas não há como fugir do reconhecimento de resultados e brigar contra os fatos. Admite, sob Lula, o “índice da miséria” (soma de inflação e desemprego) ser o mais baixo da história, e o país funcionar para o investidor estrangeiro. Este não vê um eventual Lula IV com pessimismo, dado o atraente cenário atual do governo de um estadista respeitado internacionalmente.


Stuhlberger também critica o governo anterior, mencionando Bolsonaro ter abandonado propostas neoliberais, após a Covid, com a busca pela reeleição a qualquer custo. Ele chega a defender qualquer um “candidato de centro”, tipo “algum não Bolsonaro”, trazer um ganho (upside) muito maior para O Mercado.


O raciocínio de Stuhlberger, na citada entrevista, apresenta causalidades simplórias e reducionistas. Por exemplo, atribui o crescimento do PIB quase exclusivamente à injeção de R$ 900 bilhões em gastos sociais e previdenciários entre 2021 e 2026. Ele define a dinâmica brasileira como “um moto contínuo tropical”, onde o governo acelera os gastos e o Banco Central é forçado a “brecar” com juros altos para atingir à meta irrealista de inflação.


Confrontar as ideias oportunas de Mello com as oportunistas de Stuhlberger permite ver claramente um “me engane que eu gosto” dos idolatras de O Mercado. Utiliza metáforas simplificadoras para descrever os problemas fiscais brasileiros (“piquenique no vulcão”) e baseia sua autoridade na compreensão das correntes globais de capital e na defesa intransigente da ortodoxia fiscal como única saída para a estabilidade de longo prazo. Ora, Mello busca sim mudar o regime de estagdesigualdade no qual estamos encalacrados há mais de trinta anos!

 

Este conteúdo expressa exclusivamente a análise e as opiniões do autor. Não reflete, necessariamente, a posição institucional.