NOTÍCIA
A professora Ana Rosa Ribeiro de Mendonça, do Instituto de Economia da Unicamp, participou do podcast Analisa, produzido pela Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp, para discutir o crescimento do endividamento das famílias brasileiras e seus efeitos sobre a economia.
Na entrevista, Ana Rosa explica que o crédito é parte relevante do funcionamento econômico, pois permite que empresas invistam e famílias ampliem consumo e bem-estar. No entanto, ela diferencia o endividamento das empresas, geralmente associado à ampliação da produção, do endividamento das famílias, que nem sempre gera renda futura para pagar a dívida contraída. Por isso, quando o consumo depende de financiamento, seus efeitos positivos iniciais podem ser acompanhados, em seguida, por restrição de renda e redução da capacidade de gasto.
A professora argumenta que o quadro brasileiro combina fatores estruturais e conjunturais. Embora o nível total de endividamento das famílias no Brasil não seja tão elevado em comparação com outras economias periféricas, sua composição é considerada mais problemática. O peso maior está no crédito ao consumo, e não no crédito habitacional, que costuma ter prazos mais longos e taxas menores. Dentro do consumo, crescem modalidades mais caras, como cartão de crédito rotativo e cheque especial.
Um dos pontos centrais da análise é a estrutura de juros. Ana Rosa observa que a taxa básica brasileira permanece entre as mais altas do mundo e serve de referência para as demais taxas do sistema financeiro. No caso do rotativo do cartão de crédito, ela cita taxas médias em torno de 424% ao ano, o que transforma rapidamente uma dívida pequena em um valor de difícil pagamento. A ausência de garantias nessas modalidades ajuda a explicar spreads mais elevados, mas não elimina o caráter regressivo do endividamento para famílias de menor renda.
A entrevista também aborda o impacto macroeconômico da inadimplência. Quando parte relevante da renda passa a ser destinada ao pagamento de dívidas, o consumo cotidiano diminui, afetando pequenos negócios, serviços e o giro da economia. Segundo a professora, esse é um dos sentidos de políticas de renegociação, como o Desenrola: aliviar a pressão sobre famílias endividadas e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade de consumo que sustenta atividades econômicas de base.
Ana Rosa também discute o avanço de compras digitais, serviços por assinatura e apostas online, apontando que esses gastos passam a disputar espaço com despesas essenciais no orçamento familiar. Para ela, a educação financeira deve esclarecer o funcionamento do sistema de crédito sem transferir toda a responsabilidade às famílias, que tomam decisões em um contexto marcado por juros elevados, oferta agressiva de crédito e desigualdade de renda.
O vídeo completo está disponível abaixo.
English
O Instituto de Economia da UNICAMP foi criado em 1984 e tem por finalidade a promoção do ensino e da pesquisa na área de Economia.
