Estudo mostra como mudanças na distribuição pessoal da renda influenciaram o regime de demanda nos EUA entre 1967 e 2010, redefinindo o debate sobre crescimento econômico.

 

Por Davi Carvalho

 

A dinâmica da desigualdade costuma aparecer no debate econômico como uma consequência do ciclo de crescimento. A ideia de que a expansão da atividade vem primeiro, enquanto a distribuição melhora depois, continua sustentada por modelos e narrativas que tratam a renda como um desfecho, e não como uma variável ativa. A dissertação Personal Income Distribution and Demand Regimes: a Study with Reference to the USA (1967–2010), de Gabriel Vinicius Chimanski dos Santos, orientada por Carolina Troncoso Baltar e coorientada por Rosângela Ballini, se insere nesse ponto de tensão ao inverter o eixo interpretativo: a forma como a renda é distribuída entre grupos sociais condiciona o próprio regime de demanda que sustenta o crescimento de longo prazo.

O trabalho parte da tradição kaleckiana e dialoga com o modelo de 2017 de Thomas Palley, que argumenta que economias podem alternar entre dois regimes: wage-led, quando aumentos na renda do trabalho estimulam consumo, produção e investimento; e profit-led, quando o impulso ao crescimento estaria associado à ampliação da parcela dos lucros. A contribuição central de Chimanski é expandir esse arcabouço ao introduzir um elemento pouco explorado: a distribuição pessoal da renda, não apenas a divisão funcional entre salários e lucros. Em vez de tratar trabalhadores e capitalistas como blocos homogêneos, o estudo observa como diferentes estratos populacionais se movem dentro de um sistema marcado por assimetrias crescentes.

A investigação cobre o período de 1967 a 2010 nos Estados Unidos, fase em que o coeficiente de Gini sobe, o 1% mais rico amplia sua fatia e a renda mediana de grupos racializados avança lentamente. Gráficos reunidos no trabalho mostram um país que combina aumento de produtividade com perda do poder de compra relativo, especialmente nos estratos inferiores. A queda da participação do trabalho na renda nacional a partir dos anos 1980, somada à financeirização, reforça o deslocamento estrutural que o autor pretende compreender: como esses movimentos se relacionam com a demanda agregada?

A resposta exigiu a construção de um novo modelo teórico e o uso de ferramentas econométricas capazes de capturar mudanças de regime ao longo do tempo. O autor emprega um modelo Vetorial Autorregressivo com Limiares (TVAR), adequado para identificar não apenas correlações, mas transições entre estados distintos da economia. As variáveis observadas incluem parcelas de renda de diferentes grupos, indicadores de desigualdade, consumo, investimento e utilização da capacidade produtiva.

“A incorporação da distribuição pessoal da renda me ajudou a avançar na interpretação dos estudos de Palley”, afirma Chimanski. O autor observa a possibilidade de mudança endógena do sistema, como quando o aumento da parcela dos salários pode transformar um regime profit-led em wage-led. "Quando inserimos a distribuição pessoal da renda, percebemos que essa mudança é mais complexa: se o grupo beneficiado já possui renda alta, o efeito é menor do que quando a população atendida tem renda baixa. Em síntese, importa quem é beneficiado pela política pública”, explica.

 

Modelos e Transições

 

Os resultados sugerem que transformações na distribuição pessoal da renda carregam força suficiente para alterar o próprio regime de demanda. Quando a renda aumenta nos estratos mais pobres, o estímulo ao consumo é persistente e consistente, mesmo em momentos classificados como profit-led. Isso reforça a hipótese de que políticas redistributivas têm efeito expansivo independentemente do regime dominante. A economia se torna mais wage-led à medida que a base da pirâmide melhora sua participação, criando um ciclo de demanda mais robusto.

Por outro lado, quando a renda se concentra nos segmentos superiores, o impulso sobre o investimento não se materializa na mesma intensidade. O autor reúne evidências de que o aumento da fatia apropriada pelo topo não acelera a atividade de forma sustentada, esvaziando parte do argumento que defende a flexibilização de salários ou a compressão de direitos como mecanismos pró-crescimento. A ideia ecoa o paradoxo da parcimônia: quanto maior a desigualdade, menor a potência da demanda interna.

Um aspecto relevante da pesquisa é a atenção às transições. Ao observar quatro décadas da economia americana, o estudo mostra que o regime não é estático. Mudanças endógenas podem ocorrer quando a estrutura distributiva se altera, tornando um país mais wage-led ou mais profit-led conforme variações na composição da renda. Essa perspectiva evita leituras deterministas e abre espaço para políticas anticíclicas voltadas à recomposição da renda dos trabalhadores.

O trabalho destaca ainda que a desigualdade interfere nos canais de transmissão da política econômica. Em um contexto de renda fortemente concentrada, estímulos fiscais ou monetários tendem a ter menor multiplicador, pois atingem grupos com menor propensão a consumir. Da mesma forma, cortes de impostos direcionados ao topo mostram baixo efeito sobre o investimento produtivo. A sustentação da demanda requer, portanto, atenção às camadas de menor renda, que respondem mais intensamente a aumentos de poder aquisitivo.

“Os meus resultados apontam que políticas redistributivas têm maior potencial para gerar crescimento econômico sustentável”, explica o autor. “Medidas focadas na parcela dos lucros tendem a ser mais instáveis. No fim, redistribuir renda fortalece tanto quem recebe quanto a própria economia.”

 

Concentração e Impulso

 

A dissertação também dialoga com debates contemporâneos sobre distribuição funcional e pessoal da renda. Chimanski argumenta que a leitura exclusiva da participação dos salários na renda nacional é insuficiente para captar as nuances distributivas modernas. A financeirização, o avanço da renda de propriedade e a heterogeneidade intraclasse tornam necessário observar quem, dentro dos grupos econômicos, se apropria da renda. O autor mostra que, mesmo com estabilidade relativa da participação dos salários em alguns períodos, a desigualdade interna entre trabalhadores pode se aprofundar, afetando de modo distinto a demanda.

Combinando modelagem teórica, séries históricas extensas e métodos econométricos, o estudo propõe uma síntese: regimes de demanda não são meramente características estruturais imutáveis; são resultados de disputas distributivas que podem ser moldadas por políticas públicas. A economia americana oferece um caso ilustrativo de como escolhas institucionais, desregulações e mudanças no mercado de trabalho reorganizam a base que sustenta o crescimento.

O trabalho foi reconhecida com menção honrosa no Prêmio AKB-AFEE Fernando José Cardim de Carvalho, promovido pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB) em parceria com a Association for Evolutionary Economics (AFEE), que distingue anualmente pesquisas com contribuições relevantes ao debate crítico sobre crescimento, finanças e desigualdade. 

Ao final, o autor sustenta que políticas redistributivas — como fortalecimento sindical, ampliação do salário mínimo, tributação progressiva e expansão da proteção social — não apenas corrigem desigualdades, mas fortalecem a própria dinâmica da demanda. O argumento ilumina o papel dos estratos mais pobres como elementos centrais do funcionamento macroeconômico, e não apenas beneficiários passivos de políticas compensatórias.