Pesquisa de Gilvan de Jesus Souza analisa como eventos climáticos extremos afetam a produção de soja no Brasil Centro-Sul
Por Davi Carvalho
A relação entre mudanças climáticas, produção agrícola e segurança econômica está no centro da dissertação de mestrado de Gilvan de Jesus Souza, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Unicamp. O trabalho “Relação entre Extremos Climáticos e a Produção de Soja no Brasil Centro-Sul” foi selecionado pela Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER) como a melhor dissertação de mestrado em Administração Rural para receber o Prêmio Prof. Guaracy Vieira, em 2026.
A dissertação foi desenvolvida na área de Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente. A pesquisa teve orientação da professora Aline Veronese da Silva e coorientação da professora Ivette Raymunda Luna Huamaní. Defendido em 12 de fevereiro de 2026, o estudo também teve em sua banca examinadora os professores José Maria Ferreira Jardim da Silveira, da Unicamp, e Marcelo Azevedo Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais.
O trabalho parte de uma questão que se tornou incontornável para a agricultura brasileira: como eventos climáticos extremos, como secas, enchentes, ondas de calor e geadas, interferem na produção de uma das principais commodities do país. A soja ocupa posição central nas cadeias globais de valor, com usos que vão da alimentação humana e animal à produção de combustíveis e à dinâmica dos mercados financeiros. O Brasil, nesse contexto, consolidou-se como maior produtor e exportador mundial, o que amplia a relevância econômica e geopolítica dos riscos associados à instabilidade climática.
Gilvan analisa a produção de soja nas regiões Sul e Centro-Oeste, responsáveis por parcela expressiva da produção nacional. A escolha territorial permite observar diferenças entre áreas produtoras com históricos, calendários agrícolas, condições edafoclimáticas e padrões de vulnerabilidade distintos. A dissertação mostra que os impactos dos eventos extremos não se distribuem de maneira uniforme. Eles variam conforme o bioma, o município, a etapa do ciclo da cultura e o tipo de fenômeno climático observado.
Risco climático
A pesquisa combina dados meteorológicos do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), estatísticas de produção da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de índices internacionais de extremos climáticos definidos pela Expert Team on Climate Change Detection and Indices (ETCCDI). A partir desse conjunto de informações, o estudo relaciona eventos extremos a perdas de produção em escala municipal, com uso de modelos de árvore de classificação.
A opção metodológica permite identificar limiares de risco climático e reconhecer padrões que poderiam ficar diluídos em análises mais agregadas. Em vez de tratar a produção agrícola apenas por médias regionais ou nacionais, a dissertação observa como choques climáticos se manifestam em municípios específicos e em fases distintas do desenvolvimento da soja, como germinação, florescimento, formação de vagens, enchimento de grãos e colheita.
Para Gilvan, a escala municipal é uma das contribuições centrais da pesquisa porque permite enxergar desigualdades territoriais que desaparecem em recortes mais amplos. “O risco climático da soja não é homogêneo. Mesmo dentro de um mesmo estado há diferenças importantes de biomas, clima e calendário produtivo, como em Mato Grosso, que reúne Amazônia, Cerrado e Pantanal”, afirma. Segundo ele, quando a análise é agregada no nível estadual ou nacional, municípios mais vulneráveis e limiares climáticos específicos ficam ocultos.
Entre os resultados, o trabalho indica contrastes relevantes entre as regiões analisadas. O Centro-Oeste apresenta maior estabilidade produtiva e maior eficiência média, associadas à consolidação da fronteira agrícola e a ganhos de produtividade. Já a região Sul mostra maior exposição a perdas e maior volatilidade da produtividade, sinalizando sensibilidade mais elevada a condições climáticas adversas. Essa diferença reforça a necessidade de políticas de adaptação capazes de considerar particularidades regionais, em vez de respostas homogêneas para todo o território.
A dissertação também identifica que as perdas tendem a se relacionar com combinações específicas de estresse climático. Secas persistentes, episódios de calor recorrente, frio intenso, geadas e chuvas concentradas em curtos períodos aparecem como fatores relevantes, mas seus efeitos dependem do momento em que ocorrem dentro do ciclo produtivo. Assim, uma mesma anomalia pode ter consequências distintas quando atinge a fase inicial da lavoura, o período reprodutivo ou a etapa de colheita.
Ao traduzir dados climáticos e agrícolas em regras interpretáveis, a pesquisa oferece subsídios para estratégias de monitoramento, seguro rural, planejamento produtivo e formulação de políticas públicas. O estudo aponta que modelos baseados em árvores de classificação podem funcionar como instrumentos de apoio à decisão, especialmente quando o objetivo é identificar situações de maior risco e priorizar ações de prevenção ou resposta.
O reconhecimento da SOBER situa a dissertação em um campo de debate que articula economia rural, mudanças climáticas, produtividade agrícola e governança de riscos. Segundo a comunicação oficial da entidade, os trabalhos premiados serão apresentados em uma Sessão Organizada dos Prêmios, no dia 20 de julho de 2026, durante o 64º Congresso da SOBER e XVI Congresso IRSA, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.A entrega do Prêmio Prof. Guaracy Vieira ocorrerá no mesmo dia, às 18h, durante a Assembleia Geral Ordinária da Sociedade.
Para a SOBER, o espaço de apresentação dos premiados representa uma forma de reconhecimento pelos pares e de estímulo à interação entre pesquisadores, orientadores e autores, com possibilidade de novas colaborações acadêmicas.
Para Gilvan, o prêmio tem significado acadêmico e pessoal por partir de uma entidade formada por pesquisadores que são referência nacional em economia, administração e sociologia rural. “É o sentimento de ter uma pesquisa reconhecida como a melhor dissertação de mestrado por pessoas que estudam, discutem e constroem esse campo no Brasil”, afirma. O reconhecimento, segundo ele, valida a relevância acadêmica do trabalho e amplia sua circulação entre especialistas que dialogam diretamente com agricultura, riscos climáticos e desenvolvimento rural.
No caso da dissertação de Gilvan de Jesus Souza, o prêmio reconhece uma pesquisa que trata a agricultura brasileira a partir de um problema de fronteira: a necessidade de compreender como choques climáticos se propagam por sistemas produtivos estratégicos. Ao aproximar economia aplicada, climatologia agrícola, análise espacial e métodos quantitativos, o trabalho contribui para qualificar o debate sobre adaptação climática e resiliência da produção agrícola em um país cuja inserção internacional depende, em parte, da estabilidade de suas cadeias agroalimentares.
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