Profº Renato Garcia (IE-Unicamp)
A notícia do falecimento do professor Wilson Suzigan provoca grande tristeza entre seus colegas, ex-alunos, orientandos e todos aqueles que, ao longo de décadas, conviveram com sua obra, sua presença acadêmica e sua generosidade intelectual. Sua trajetória se confunde, em muitos aspectos, com a própria consolidação de campos centrais do pensamento econômico brasileiro, especialmente nos estudos sobre industrialização, política industrial, economia da inovação e desenvolvimento. Recordar Wilson Suzigan, neste momento, é prestar homenagem não apenas a um grande professor e pesquisador, mas a um intelectual público cuja produção marcou gerações e ajudou a construir, com rigor e consistência, uma agenda de pesquisa decisiva para a compreensão do Brasil.
Nascido em Americana, em 26 de fevereiro de 1942, Wilson Suzigan iniciou sua formação em Ciências Econômicas na PUC-Campinas. Pertenceu à primeira turma de mestrado em Economia da EPGE/FGV-Rio, onde defendeu, em 1968, a dissertação O Processo de Substituição de Importações no Brasil. Mais tarde, concluiu o doutorado na Universidade de Londres, com uma tese sobre o investimento na indústria de transformação brasileira entre 1869 e 1939. Sua formação já revelava uma característica que se manteria ao longo de toda a sua trajetória: a combinação rara entre sólida base teórica, rigor analítico e extraordinária atenção ao trabalho empírico e histórico. Essa combinação foi uma das marcas mais distintivas de sua contribuição intelectual.
Antes de ingressar na Unicamp, Suzigan teve atuação relevante no IBRE/FGV-Rio e no IPEA, onde trabalhou como pesquisador e coordenador de área. Em meados dos anos 1980, passou a integrar o Instituto de Economia da Unicamp, instituição à qual permaneceria profundamente ligado mesmo após a aposentadoria. Após sua atuação no IE, seguiu contribuindo de forma intensa no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências, onde continuou ensinando, pesquisando e formando alunos até os últimos anos de sua vida acadêmica. Em 2024, a Unicamp reconheceu formalmente essa trajetória com a concessão do título de Professor Emérito, distinção plenamente merecida para alguém cuja presença intelectual atravessou e conectou o Instituto de Economia e o Instituto de Geociências.
Sua obra ocupa lugar de destaque no pensamento econômico brasileiro. Wilson Suzigan foi autor de contribuições seminais sobre a industrialização brasileira. Seu livro Indústria Brasileira: origens e desenvolvimento tornou-se uma referência incontornável para a compreensão da formação industrial do país e influenciou, de maneira profunda, a formação de sucessivas gerações de economistas. O valor desse trabalho não decorre apenas da força interpretativa de sua tese, mas também do impressionante esforço de reconstrução histórica e estatística que lhe serviu de base. Suzigan era um pesquisador que tratava os dados com seriedade exemplar, sempre atento à qualidade da evidência, à coerência da argumentação e à necessidade de articular interpretação histórica e análise econômica. Essa postura deu densidade singular à sua produção e estabeleceu um padrão de excelência que deixou marcas duradouras na pesquisa brasileira.
No campo da política industrial, sua contribuição foi igualmente decisiva. Wilson Suzigan ajudou a construir no Brasil uma visão sofisticada e moderna da política industrial, distante tanto de simplificações voluntaristas quanto das recusas dogmáticas tão frequentes no debate público. Em seus trabalhos, a política industrial aparecia como parte de um arranjo institucional mais amplo, dependente de coordenação, aprendizado, construção de capacidades e interação entre Estado, empresas e sistema de ciência e tecnologia. Foi também um dos autores que mais consistentemente insistiram na importância das instituições para o êxito, ou fracasso, das estratégias de desenvolvimento industrial. Em um país frequentemente marcado pela descontinuidade e pela fragilidade institucional, Suzigan mostrou, com clareza e profundidade, que a política industrial não pode ser pensada apenas como um conjunto de instrumentos, mas como parte de um projeto nacional de transformação produtiva e tecnológica.
Na economia industrial e da inovação, suas contribuições foram igualmente amplas e influentes. Seu trabalho sobre sistemas locais de produção e arranjos produtivos locais ajudou a estruturar, no Brasil, uma agenda de pesquisa que combinava refinamento conceitual, preocupação empírica e implicações concretas para políticas públicas. Ao mesmo tempo, seus estudos sobre interação universidade-empresa abriram novas perspectivas para compreender o papel das universidades e dos institutos públicos de pesquisa no desenvolvimento tecnológico brasileiro. Os estudos de Suzigan foram fundamentais para demonstrar que a contribuição das universidades ao sistema nacional de inovação era muito mais ampla e profunda do que muitas vezes se supunha. Com isso, ajudou a reposicionar o debate sobre inovação no país e a iluminar caminhos para políticas mais consistentes de ciência, tecnologia e inovação.
Mas sua grandeza não se limitou à produção bibliográfica. Wilson Suzigan também foi um formador extraordinário. Orientou dezenas de dissertações, teses e trabalhos de iniciação científica, deixando uma marca profunda na trajetória de muitos pesquisadores. Sua influência se exerceu tanto pela solidez de suas ideias quanto pelo exemplo cotidiano de seriedade, disciplina intelectual e compromisso com a universidade pública. Foi também figura central em iniciativas editoriais importantes, com destaque para sua atuação na criação da Revista Economia da Anpec e, sobretudo, da Revista Brasileira de Inovação, periódico cuja implantação, em 2002, muito deve à sua visão, dedicação e liderança. Ao ajudar a construir instituições acadêmicas duradouras, Suzigan fez mais do que produzir conhecimento: ajudou a criar as condições para que esse conhecimento pudesse circular, amadurecer e formar novas gerações.
Neste momento de despedida, o sentimento que permanece é o de gratidão. Gratidão por uma vida intelectual fecunda, por uma obra sólida e respeitada, por uma contribuição decisiva ao pensamento econômico brasileiro e por um exemplo de integridade acadêmica. Wilson Suzigan pertence a uma geração de intelectuais que ajudou a pensar o Brasil com ambição analítica, compromisso público e rara seriedade. Sua ausência será profundamente sentida. Sua obra, porém, seguirá viva: nas bibliotecas, nas salas de aula, nas agendas de pesquisa, nas revistas que ajudou a criar e na memória de todos que aprenderam com ele. É assim que permanecem os grandes mestres, não apenas pelo que escreveram, mas pelo mundo intelectual e humano que ajudaram a construir.
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O Instituto de Economia da UNICAMP foi criado em 1984 e tem por finalidade a promoção do ensino e da pesquisa na área de Economia.
