O Instituto de Economia da Unicamp alcança a marca de 500 edições de sua série Texto para Discussão. Criada em 1991, a coleção registra há 35 anos pesquisas, debates e transformações da economia brasileira e internacional. O número comemorativo mantém essa trajetória.
O Texto comemorativo é intitulado Make (in) America Great Again? Technological and regional heterogeneities of U.S.’s deindustrialization and the limits of the transition to knowledge-intensive services, 2000–2024, de Antonio Carlos Diegues, Qiuyi Yang, Marcos José Barbieri Ferreira e Flávio Vinícius Ferreira. O estudo investiga a desindustrialização dos Estados Unidos entre 2000 e 2024, considerando diferenças regionais, setoriais e tecnológicas. Também examina a retomada da política industrial e o papel dos serviços intensivos em conhecimento.
Os resultados relativizam a interpretação de uma redução contínua da importância econômica da manufatura norte-americana. A participação industrial no PIB, medida a preços constantes, passou de 9,46% para 10,18% entre 2000 e 2024. A relação entre renda e indústria permanece predominantemente positiva até níveis muito elevados de renda per capita. A reversão aparece apenas entre aproximadamente US$ 93 mil e US$ 103 mil. Em 2024, somente quatro estados ultrapassavam esse intervalo.
A composição também mudou. Indústrias de baixa intensidade tecnológica perderam participação, enquanto segmentos de maior conteúdo tecnológico apresentaram trajetórias distintas e, em vários casos, expansão relativa. Os autores identificam ainda forte heterogeneidade entre os estados, afastando a ideia de um processo uniforme de desindustrialização nacional.
Apesar do avanço dos serviços intensivos em conhecimento, a manufatura permanece como principal fonte de contribuição ao crescimento da produtividade nas estimativas apresentadas. Em 2024, a indústria reunia 9,61% do emprego considerado, ante 25,74% dos serviços intensivos em conhecimento. Ainda assim, esses serviços não superam a contribuição industrial à produtividade dentro do intervalo de renda observado.
O estudo encontra também uma mudança associada ao período posterior a 2015, quando a política industrial voltou a ocupar espaço explícito na estratégia norte-americana. Os autores não atribuem causalidade direta a programas específicos. Porém, várias especificações mostram aumento da participação da manufatura no PIB depois da retomada dessas políticas, sobretudo entre estados mais pobres e mais ricos. O mesmo efeito ainda não aparece de forma estatisticamente identificável na contribuição industrial à produtividade.
O início da série
A publicação do número 500 recupera também a origem da coleção. Segundo Célia Maria Passarelli, funcionária responsável pela normalização e diagramação dos TDs desde 1993, a iniciativa surgiu em 1991 por proposta do professor Fernando Nogueira da Costa. O primeiro Texto para Discussão foi escrito por Maurício Coutinho.
“Nascia, assim, uma série que, ao longo das décadas, se consolidaria como um espaço de divulgação da produção acadêmica do Instituto de Economia. Esta história foi construída pelo trabalho de muitas pessoas. Para mim, este momento tem um significado especial. São mais de três décadas acompanhando de perto esse trabalho, página após página, edição após edição”, afirma Célia.
A série foi criada para colocar ideias em circulação. Seu formato permite divulgar pesquisas em andamento, levar resultados preliminares ao debate e publicar trabalhos que exigem maior espaço de desenvolvimento. Ao longo das décadas, essa característica transformou a coleção em registro dos problemas investigados pelo Instituto em diferentes conjunturas econômicas e sociais.
Célio Hiratuka, diretor do Instituto de Economia, destaca que percorrer os 500 números permite acompanhar mudanças do Brasil e da economia mundial. Segundo ele, momentos de inflexão deixaram marcas na coleção, que preservou resultados de pesquisa e questões colocadas aos pesquisadores em cada período. Muitos desses trabalhos permaneceram em circulação e passaram a integrar cursos, dissertações e teses.
Próximos 500
Para Hiratuka, a palavra “discussão” define uma característica própria da série: permitir que trabalhos alcancem leitores antes de sua versão definitiva. O formato também favorece textos extensos e trabalhos conjuntos entre pesquisadores de diferentes instituições e gerações. A publicação funciona, assim, como espaço de circulação, crítica e amadurecimento da produção acadêmica.
A marca reúne 35 anos de produção intelectual e do trabalho técnico necessário para manter a coleção em circulação. Como registra o diretor do IE, essa continuidade foi sustentada por autores, autoras e equipes que preservaram o compromisso com o debate acadêmico. “Que os próximos quinhentos encontrem o mesmo espírito.”
Baixe o Texto para Discussão nº 500: https://www.economia.unicamp.br/images/arquivos/artigos/TD/TD500.pdf
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